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Blog do João Antônio Motta

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Margem de lucro de bancos só é comparável à de atividades ilícitas

João Antônio Motta

22/07/2019 04h40

As notícias informavam no início do ano que este havia sido o melhor trimestre para os bancos nos últimos quatro anos, desde o primeiro trimestre de 2015, quando eles lucraram R$ 20,8 bilhões. Com isso, podemos prever que os lucros dos maiores bancos estarão perto dos R$ 100 bilhões no final de 2019.

Isso é ruim? Claro que não, os acionistas que o digam com o pagamento de dividendos.

Acontece que este lucro não traduz um aquecimento na economia, uma aceleração no desenvolvimento. A economia vai aos trancos e barrancos, as empresas sofrem e lutam por migalhas no mercado, e os bancos apresentam esplêndidos resultados.

E isso se dá em um mercado fechado, sem concorrência, no qual tarifas e taxas de juros são praticamente idênticas, e os clientes não têm para onde fugir. Não têm onde se abrigar.

As empresas que lutam em um mercado recessivo precisam pagar a folha, seus colaboradores. Precisam pagar os fornecedores. As pessoas em geral precisam terminar o mês, o supermercado não pode esperar. E assim vão todos ao cheque especial, às linhas de capital de giro, sendo que não há alternativas, os juros são astronômicos.

É preciso acabar de vez com o mito de quem vai ao banco vai porque quer. Vão todos porque precisam.

Quem, em perfeitas condições mentais, iria tomar dinheiro a 5% ao mês? Isso para falar em uma taxa média, porque no geral é bem mais alta.

Evidentemente, com juros nestes patamares, as agências bancárias deveriam estar às moscas, e não com a habitual fila de pessoas com a mão estendida.

Então somos todos loucos? 

A verdade é que o crédito é um produto de necessidade, só vai buscá-lo quem precisa, e isso deve ser deixado bem claro. 

Se é assim, claramente é assim, pois inclusive há uma legislação fortemente regulada em um Conselho Monetário Nacional e um órgão executivo, o Banco Central, qual a razão de os bancos, mesmo com o país em crise, nadarem de braçada?

As margens de ganho, os lucros, são livres, absolutamente liberados, e os bancos acostumaram-se com esta enorme desproporção.

Vejam, não se trata de demonizar os lucros, pois certamente são bem-vindos. 

Contudo, em mercados em que há o monopólio do crédito e quase a formação de um cartel, em que os preços têm variação mínima e não há concorrência, um olhar mais atento da autoridade monetária seria interessante às margens de lucro, só comparáveis às atividades ilícitas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

João Antônio Motta é advogado (PUC/RS – OAB em 1982) especialista em obrigações e contratos, com ênfase em direito bancário, econômico e do consumidor. É autor do livro “Os Bancos no Banco dos Réus“ - Ed. América Jurídica, (Rio de Janeiro, 2001).

E-mail de contato: contato@jacmlaw.com

Sobre o Blog

Este blog traz informações independentes sobre bancos, segurança, cobrança, investimento e outros temas que ajudam no seu dia a dia com as instituições financeiras.