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Blog do João Antônio Motta

Blog do João Antônio Motta

Um banco que te faz refém

João Antônio Motta

22/04/2019 04h52

Se você é empresário sabe muito bem o que é trava bancária. Isso significa que pelo dinheiro que adianta em um banco, você entrega em garantia (trava) os recebimentos de suas vendas em cartão de crédito, valendo dizer que o banco recebe, se paga no que você está devendo e libera o saldo, se houver, em sua conta-corrente.

Uma operação normal e muito utilizada, com evidentes vantagens de parte a parte e com juros relativamente baixos, tendo em mira que o risco é pequeno já que a operação é auto liquidante, se paga com o resultado das suas vendas, do próprio negócio.

Agora imagine que o banco torne ainda mais fácil esta operação. Ele lhe concede um crédito e durante meses você paga apenas os juros e deixa o principal, o valor total emprestado, para a última parcela. Melhor ainda. Este banqueiro, um verdadeiro parceiro dos negócios, faz isso em diversos contratos, irriga sua empresa com dinheiro abundante e barato.

Continuando, no meio destes negócios, o banco te propõe adiantar o vencimento de alguns contratos e consolidar sua dívida em uma única operação, que ficará mais fácil controlar.

O que você não percebe é que tem recebido valores dos cartões de crédito, mas eles ficam repousando em uma conta vinculada, bloqueados, o que faz você usar o cheque especial, que como é sabido por todos, tem as maiores taxas de juros do planeta.

Está formado o cenário para sua ruína, vender tudo que tem para pagar o banco e se livrar do problema. Isso se der sorte, porque ainda pode ficar devendo.

É que este sistema favorece o rendimento do banco em detrimento das amortizações. Você nunca conseguirá realizar pagamentos que realmente diminuam sua dívida, que ficará igual às suas vendas ou até mesmo superior, havendo apenas única e exclusivamente o pagamento de juros.

Pior. Ao adiantar vencimentos de contratos para consolidar sua dívida, o banco ainda não vai abater os juros que se vencem ao futuro, cobrando o ilegal, o indevido – como já salientado aqui no blog – incrementando seu saldo devedor com mais juros.

Você só pagou juros, não amortizou nada, sendo que desta forma se torna refém do banco, sua margem de lucro se esvai no pagamento de juros ao banco que, quando percebe ter a empresa se tornado inviável economicamente, liquida o saldo devedor, deixando você e o seu negócio senão arruinados, à beira disso.

A novidade aqui é que isso parece ter se tornado um modelo de negócios a certo e determinado banco, uma atitude que beira o ilícito penal e que vai contra todos os fundamentos do Sistema Financeiro Nacional. O mecanismo é controlado por algoritmos que dão a margem de rentabilidade/mês de cada empresa ao banco e é sucessivamente replicado, apontando exatamente o momento do banco pular fora, quando a empresa fica inviável ou está em vias de se tornar.

São milhares de micro e pequenas empresas, mercados de bairros e feiras que não sabem e não têm controle sobre a conta vinculada, onde são depositados os valores das vendas dos cartões de crédito. Da mesma forma, são tantas outras grandes empresas que descuidam do dia a dia de seus recebimentos, ainda mais quando provenientes de centenas de trasações, o que as tornam reféns de um mecanismo que lhes toma o próprio negócio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

João Antônio Motta é advogado (PUC/RS – OAB em 1982) especialista em obrigações e contratos, com ênfase em direito bancário, econômico e do consumidor. É autor do livro “Os Bancos no Banco dos Réus“ - Ed. América Jurídica, (Rio de Janeiro, 2001).

E-mail de contato: contato@jacmlaw.com

Sobre o Blog

Este blog traz informações independentes sobre bancos, segurança, cobrança, investimento e outros temas que ajudam no seu dia a dia com as instituições financeiras.